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africâner - gramatica


Gramaticalmente, o africâner caracteriza-se por ser o idioma mais analítico entre as línguas indo-européias. Comparado com o neerlandês padrão, destaca-se pela sua simplicidade morfológica: os verbos não se conjugam em número, pessoa e modo; os substantivos não têm gênero; não há distinção morfológica de casos gramaticais (exceto alguns resquícios no sistema pronominal); e os diferentes tempos verbais são indicados primordialmente por construções perifrásticas ao invés de flexões dos verbos. Quase a totalidade dos verbos africâneres são ainda regulares. Sintaticamente, porém, o africâner apresenta características semelhantes a outras línguas germânicas ocidentais com algumas complicações adicionais como a dupla negação, que é peculiar ao africâner e tem origem ainda não esclarecida. Influências do francês e do san, assim como de dialetos baixos-francônios da Flandres ocidental e de vilas isoladas no centro da província da Holanda (Garderen) foram sugeridas como possíveis origens da dupla negação africâner, mas nenhuma dessas sugestões até hoje se mostrou plenamente satisfatória.



Pronomes


O africâner distingue pronomes pessoais por número (singular ou plural), pessoa ( primeira, segunda e terceira) e, ocasionalmente, caso (pronomes usados como sujeito e pronomes usados como objeto direto/indireto). Na terceira pessoal do singular existe ainda uma distinção por gênero entre pronomes masculinos, femininos e neutros (como em inglês, neerlandês e alemão). Na segunda pessoa do singular, como em inúmeras outras línguas indo-européias, há também uma distinção T-V entre tratamento formal e informal. Em geral, não se distinguem pronomes pessoais de objeto direto/indireto de pronomes adjetivos possessivos, exceto na terceira pessoa do singular e, ocasionalmente, na segunda e terceira pessoas do plural.























































Pessoa/númeroPronomes pessoais de sujeitoPronomes pessoais de objetoPronomes adjetivos possessivosPronomes substantivos possessivos
Primeira pessoa do singularEkmymymyne
Segunda pessoa do singularJy (informal), u (formal)jou (informal), u (formal)jou (informal), u (formal)joune (informal), u s'n (formal)
Terceira pessoa do singularHy (masc.), Sy (fem.), Dit (neut.)hom (masc.), haar (fem.), dit (neut.)sy (masc.), haar (fem), dit (neut.)syne (masc.), hare (fem.)
Primeira pessoa do pluralOnsonsonsons s'n
Segunda pessoa do pluralJullejullejulle/jul1julle s'n
Terceira pessoa do pluralHullehullehulle/hul1hulle s'n



1 As variantes hul e jul são freqüentemente utilizadas distinguir o pronome possessivo dos correspondente pronome pessoal de sujeito/objeto.




Adjetivos


Os adjetivos em africâner não são flexionados em gênero e número. Existe entretanto uma diferenciação morfológica entre adjetivos predicativos (que se seguem ao substantivo a que se referem) e atributivos (que precedem o substantivo que modificam). Como em alemão e neerlandês, os adjetivos predicativos em africâner nunca são flexionados. Aos adjetivos atributivos polissilábicos, adiciona-se normalmente o sufixo -e. Os adjetivos atributivos monossilábicos por outro lado podem ou não ser flexionados e, quando flexionados, podem sofrer outras alterações morfológicas de acordo com um conjunto complexo de regras fonológicas. A tabela abaixo ilustra a morfologia do adjetivo africâner.
































































































PredicativoAtributivoInglêsPortuguês
hooghoëhighalto, alta, altos, altas
laaglaelowbaixo, baixa, baixos, baixas
leegleëemptyvazio, vazia, vazios, vazias
slegslegtebadmau, má, maus, más
regregterightcerto, certa, certos, certas
koudkouecoldfrio, fria, frios, frias
goedgoeiegoodbom, boa, bons, boas
jonkjongyoungjovem, jovens
doofdowedeafsurdo, surda, surdos, surdas
oudouoldvelho, velha, velhos, velhas
nuutnuwenewnovo, nova, novos, novas
grootgrootbig/greatgrande, grandes
swartswartblackpreto, preta, pretos, pretas
draagbardraagbareportableportátil, portáteis


Como nas outras línguas germânicas, o adjetivo africâner é também flexionado em grau, indicando comparativo e superlativo. Nesse caso, as mesmas regras fonológicas ilustradas na tabela acima se aplicam, e.g., koud - kouer (compar.) - koudste (superl.); reg - regter (compar.) - regste (superl.); goed - beter (compar.) - beste (superl.); nuut - nuwer (compar.) - nuuste (superl.).



Substantivos


Ao contrário do neerlandês e do alemão, o africâner não distingue substantivos por gênero. Há porém uma distinção de número (singular ou plural). Na maioria dos casos, o plural dos substantivos africanos é formado adicionando-se o sufixo -e à sua forma singular. Há entretanto uma classe grande de substantivos que formam o seu plural alternativamente com a adição do sufixo -s como em inglês. Vários substantivos apresentam também plurais irregulares ou, quando flexionados em número, sofrem as mesmas alterações morfológicas que se verificam na flexão dos adjetivos. A tabela abaixo ilustra algumas classes comuns de plurais de substantivos africâneres.




























































































SingularPluralInglêsPortuguês
voetvoetefoot/feetpé(s)
vraagvraequestion(s)pergunta(s)
leeflewelife/livesvida(s)
oogeye(s)olho(s)
minuutminuteminute(s) (*)minuto(s)
tydtyetime(s)tempo(s)
nagnagtenight(s)noite(s)
stadstedecity/cities (*)cidade(s)
eieieregg(s)ovo(s)
liedliederesong(s)canção/canções
kindkinderschild/childrencriança(s)
tafeltafelstable(s) (*)mesa(s) (cf. tábua(s) )
voëlvoëlsfowl(s) (or bird(s))pássaro(s), ave(s)



Além de não apresentarem gênero, os substantivos africâneres tampouco são flexionados por caso. Construções perifrásticas são usadas como no neerlandês coloquial para designar o caso genitivo, por exemplo Oom Gert se winkel (Port. "a loja do tio Gert", Inglês Uncle Gert's shop/store ). Outras distinções de caso são indicadas sintaticamente através da ordem das palavras na oração ou pelo uso de preposições, por exemplo van ("de"), vir ("para"), e deur (equivalente ao Port. "por" usado para marcar o agente da passiva, cf. Neerl. door, Al. durch).



Artigos


O africâner possui um único artigo definido, die, que não é flexionado em gênero, número ou caso (cf. Ing. the, Port. o, a, os, as). Analogamente, há também um único artigo indefinido invariável, 'n (cf. Neerl. een, Port. um, uma, uns, umas).



Verbos


Ao contrário de várias outras línguas indo-européias, os verbos em africâner não são conjugados em número, pessoa ou modo. Quase a totalidade dos verbos africâneres são regulares e apresentam apenas duas formas: uma forma não flexionada usada como infinitivo e empregada também para indicar tempo presente, e um particípio passado distinto do particípio germânico usual e obtido acrescentando-se o prefixo ge- ao infinitivo , e.g. infinitivo/presente maak, particípio gemaak. Verbos com prefixos não-separáveis (e.g. verkoop, ontmoet) têm a mesma forma tanto para o infinitivo quanto para o particípio passado. Em verbos com prefixos separáveis (e.g. reghelp), o particípio é formado inserindo-se ge- entre o prefixo separável e a raiz principal do verb (e.g. reggehelp).


Como no alemão suíço, no bávaro e no ídiche, não existe em africâner o pretérito sintético germânico (equivalente ao simple past ou passado histórico inglês). A função do pretérito sintético foi absorvida, tanto na língua oral como escrita, pelo pretérito composto, formado morfologicamente com verbo auxiliar het + particípio passado. Em contraste com outras línguas germânicas, não existe também no africâner moderno o pretérito mais-que-perfeito composto. Assim, por exemplo,




Afr. ek breek = Ing. I break, I am breaking = Port. eu quebro, eu estou quebrando



Afr. ek het gebreek = Ing. I broke, I was breaking, I have broken, I had broken = Port. eu quebrei, eu quebrava, eu estava quebrando, eu tenho quebrado, eu quebrara/tinha quebrado.



Como exceções à regra anterior, citam-se os verbos wees ("ser/estar") e ("ter") que mantêm quatro formas distintas respectivamente para o infinitivo, presente, pretérito (passado histórico) e particípio passado. Outros exemplos menos freqüentes de verbos que retêm pretéritos simples e/ou particípios irregulares são weet ("saber/conhecer") e dink ("pensar"). A distinção morfológica entre presente e pretérito é mantida também nos verbos modais moet, kan, sal e will. A tabela abaixo mostra um resumo da conjugação dos verbos irregulares ou modais em africâner.





















































InfinitivoPresentePretéritoParticípio
weesiswasgewees
hethadgehad
weetweetwisgeweet
dinkdinkdaggedag/gedog

moetmoes

kankon

wilwougewil

salsou


O tempo futuro por sua vez é indicado em africâner pelo auxiliar sal + infinitivo, e.g. ek sal kom = Port. "eu virei".


O condicional (ou futuro do pretérito na terminologia gramatical brasileira) é indicado pelo pretérito sou + infinitive, e.g. ek sou kom = Port. "eu viria".


Como outras línguas germânicas, o africâner mantém ainda uma voz passiva analítica que é formada no presente pelo auxiliar word + partícipio, e, no pretérito, pelo auxiliar is + particípio, i.e.




Afr. word gemaak = Ing. is made/is being made = Port. "é feito/está sendo feito".



Afr. is gemaak = Ing. was/was being/has been made = Port "foi/era/estava sendo/tem sido feito".



O africâner literário admite ainda a construção was gemaak para indicar mais-que-perfeito na voz passiva, cf. Ing. had been made ou Port. tinha sido/fora feito. Essa construção entretanto é pouco comum na língua coloquial falada.




  • Nota: O exemplos desta seção mostram também que se perdeu em africâner a distinção existente nas outras línguas germânicas entre verbos fracos e fortes (compare Afr. gebreek versus Ing. broken ou Alem. gebrochen ). Entretanto, as formas (fracas e fortes) do particípio passado original germânico ainda são preservadas em africâner quando os particípios são empregados como adjetivos. Compare por exemplo ek het 'n brief geskryf ("eu escrevi uma carta") com 'n geskrewe brief ("uma carta escrita").




Sintaxe


A ordem das palavras na oração africâner segue regras semelhantes às encontradas no neerlandês padrão e outras línguas próximas como o alemão, i.e. os verbos normalmente aparecem na segunda posição em orações principais, orações coordenadas ou períodos simples, e em posição final em orações subordinadas. Em construções perifrásticas (por exemplo, perfeito, futuro, voz passiva, etc...) o infinitivo ou o particípio passado do verbo principal aparecem em posição final nas orações principais ou períodos simples, enquanto os verbos auxiliares aparecem na segunda posição. Em orações subordinadas, a construção perifrástica aparece sempre na posição final havendo certa liberdade (como em neerlandês) na colocação relativa entre o verbo auxiliar e o infinitivo/particípio. Por exemplo:




Hy is ryk.



Port. "Ele é rico".





Ek weet dat hy ryk is.



Lit. "Eu sei que ele rico é "



Port. "(Eu) sei que ele é rico."





Hy moet ryk wees .



Lit. "Ele deve rico ser"



Port. "Ele deve ser rico."





Ek dink dat hy ryk moet wees/wees moet.



Lit. "Eu penso que ele rico deve ser/ser deve"



Port. "Penso que ele deve/deva ser rico."





Ek wil 'n auto hê.



Lit. "Eu quero um carro ter."



Port. "Eu gostaria de ter um carro."





Ek het 'n huis gekoop.



Lit. "Eu tenho uma casa comprado"



Port. "Comprei uma casa."





As ek geld gehad het, kon ek 'n auto koop.



Lit. " Se eu dinheiro tido tenho, pude eu um carro comprar"



Port. "Se eu tivesse dinheiro, podia/poderia comprar um carro".



Orações subordinadas adjetivas em africâner iniciam-se normalmente pelo pronome relativowat, usado tanto para antecedentes pessoais e não-pessoais. Alternativamente, uma oração subordinada adjetiva pode ser iniciada com uma preposição + wie, quando se referir a um antecedente pessoal, ou por uma aglutinação entre waar e uma preposição (e.g. waarvan, waarin, etc...) quando se referir a um antecedente não-pessoal. Em qualquer um desses casos, aplicam-se as mesmas regras de colocação dos verbos válidas para orações subordinadas em geral, e.g.




Die man wat hier gebly het was Amerikaner.



Lit: "O homem que aqui morado tem era americano.



Port: "O homem que morava aqui era americano."





Die man met wie ek gepraat het was Suid-Afrikaner.



Lit: "O homem com quem eu falado tenho era sul-africano."



Port. "O homem com quem eu falei era sul-africano."



Uma característica sintática particular do africâner é o uso da dupla negação, ausente em outras línguas germânicas. Exemplo: Hy kan nie Afrikaans praat nie. (literalmente "Ele pode não africâner falar não"). No africâner moderno, a dupla negação segue um conjunto bem estruturado de regras relativamente complexas, como ilustrado nos exemplos abaixo de Bruce Donaldson:




Ek het nie geweet dat hy sou kom nie.



Port. "Eu não sabia que ele vinha/viria."





Ek het geweet dat hy nie sou kom nie.



Port. "Eu sabia que ele não vinha/viria.





Ek het nie geweet dat hy nie sou kom nie.



Port. "Eu não sabia que ele não vinha/viria."





Hy sal nie kom nie, want hy is siek.



Port. Ele não vai vir/virá, porque (ele) está doente.





Dis (=Dit is) nie so moeilik om Afrikaans te leer nie.



Port. " Não é tão difícil aprender africâner."



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2 comments:

Lincoln disse...

Boa tarde,
Achei muito interessante estas informações sobre a origem do africaner e de como ela influênciou a lingua inglesa.
Pesquiso a palavra trekking que faz parte do vocabulario ingles, mas com origem Africaner.
precisaria de uma fonte de onde veio estas informações para colocar os creditos no meu trabalho de graduação.

atenciosamente,

Lincoln M. Marciano

lilaliss disse...

lincoln, vc pode referenciar o trabalho pelo proprio link, veja pelas regras da abnt como fazer isso. mas se quiser mais informacoes veja no wikipedia. mas tbem vai ter q referencias pelo link

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